cotidiano circular
Sua vida estava escrita na folha em branco. Escrita com garrancho nenhum, era tudo letra bem caprichada, todas desenhadas circuladas, bonitas. Abriu o pão com a mão e as migalhas caíram por cima da página. Arrancou o miolo pra evitar engordar barriga. A página em branco começava assim: Nasceu vendo tudo! Aí passou manteiga no pão e achou que tinha visto muito não, só assim o que era aceso de cor, ainda mais que tinha ganhado óculos em idade grande, quando foi que passou a vasculhar tudo diferente de antes, sem usar mão nenhuma. Tudo via com olho, apalpado nada mais não. Virou a carta e mordeu o pão. Agora lia a vida de modo avesso. Já queria entender logo o que aconteceria no fim. Ai descobriu que morreu mesmo, não vendo nada. Fez um oras bem alto com a boca, resmungado sabe assim. Picotou a carta e foi tudo posto pra dentro do pão e mordendo depois, foi tudo posto pra dentro da barriga. Papel engordava feito miolo? Ia morrer num vendo nada, tudo escrito na carta. Saiu na rua pra pod...