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Mostrando postagens de 2014

exercícios e vaidades

são anos sem escrever. nesse tempo apenas mensagens de texto. poucas cartas de amor, nas datas que se celebram os aniversários, e algum desabafo de alguma angústia. quanto mais escrevo mais limpo fica o pensamento. é como se aos poucos a eloquência do raciocínio tomasse benefício do papel e caneta, voltando ao vocabulário aquelas palavras que são mais comuns grafadas, por exigir da memória mais tempo para nascerem na ponta do lápis do que na ponta da língua. a fala solta não espera, é impulso. são dias em que voltei a caminhar e após o primeiro diploma de andador passei a aprendiz de corredor. poucos quilômetros atrás eu era sedentário, agora mesmo aqui, depois de circundar esses prédios sou atleta de espírito. me beneficio do banho frio e picoto frutas dentro de um copo, a barriga me envolve na cintura apesar de tudo. planejo um corpo em ordem. tudo é vaidade nos movimentos humanos, fiquei sabendo que a bíblia começa assim: tudo é vaidade. tenho tentado ouvir rádio. apostei nele co...

bolso oco

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Arranquei toda a carne do meu corpo, guardei num bolso oco. A pele ainda era nova, sem marcas de rugas ou vermelho de sol. Fiquei em pé, defronte ao espelho, com os ossos amarelados tão escassos de carne. Meu corpo estava cru, risível e exposto. Pra que mantê-la? Era só o muro de uma casa que mal se vê por dentro. Olhei minhas canelas ainda mais finas. Senti que meus braços se arrepiariam se ainda estivessem na sua forma original. Tentei sorrir, mas visualmente nada mudava, a expressão era sempre a mesma pra qualquer sentido. Vesti um par de meia laranja e uma boina preta que jamais havia usado por nunca achar combinação oportuna, mas agora, o conjunto parecia esteticamente adequado. Deixei o apartamento em que morei por alguns meses sem se despedir de qualquer objeto que merecesse meu adeus. Desci quatro lances de escada e alcancei a recepção do prédio. Dormia o funcionário com toda a pompa que seu bigode lhe emprestava. Abri a porta e ali estava; a madrugada com suas horas avançadas....

quem foi nunca mais se foi

Cecília me convidara a viajar. Algum país frio. Deveria levar blusa ou deveria comprá-las por lá? Talvez nos esquentássemos. Talvez. Fui convencido quando me disse que poderíamos caminhar por parques em domingos cinza. Era bonito imaginar. Gravei todos os discos que pude, mas não levei blusas. Cecília decidiu me dar a mão quando no meio de uma avenida aceitei seu convite. Parecia emocionada. Fazia doze dias que me conhecia e era a primeira vez que silenciava tanto. Ficamos assim de mãos dadas pensando nos domingos cinza. Cecília, em sua vida, costurava roupas. Cantava enquanto arrancava uma saia ou uma calça de um pano qualquer. Vestia seus vestidos. Gostava mesmo quando colocava a mão na cintura. Um charme. Dormimos juntos nos quatro primeiros dias que nos conhecemos e passei a sorrir um bocado. No quinto dia depois de Cecília em minha vida, decidi voltar pro mundo. Desci as escadas de sua casa e, na rua, olhando pra cima, vi as nuvens em formas de frango. E quando hora mais tarde che...