jazz o abençõe
O cão revirou o saco plástico até que encontrou um jazz num pedaço de disco, ali, misturado aos detritos. Engoliu como se fosse carne. Na noite anterior, o mesmo disco que rodava e rodava na vitrola serviu de trilha-sonora para a discussão do casal do 4º andar. Nota-se aqui que em algum momento o vinil rachou, seja de propósito ou incidentalmente e veio a reduzir-se a cacos até chegar à rua, via saco de lixo. Imaginemos um casal que quebra discos quando discute. Improvável? Nem tanto. De toda maneira melhor pensarmos nesse delirante palpite do que na simples versão de que o disco apenas caiu quando seria trocado de lado. Nem é o caso de investigar, apenas façamos as reflexivas suposições. E eis que o cão, que nada tinha com a briga, digeriu o jazz e estranhamente sob o sol do meio-dia, latiu o som de um trompete. Mastigara justamente um trecho de notas graves. Seu penoso pêlo de cão de rua lhe afigurava um tom maltrapilho e caricato, o que o deixava em maior desarmonia com se...