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jazz o abençõe

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O cão revirou o saco plástico até que encontrou um jazz num pedaço de disco, ali, misturado aos detritos. Engoliu como se fosse carne. Na noite anterior, o mesmo disco que rodava e rodava na vitrola serviu de trilha-sonora para a discussão do casal do 4º andar. Nota-se aqui que em algum momento o vinil rachou, seja de propósito ou incidentalmente e veio a reduzir-se a cacos até chegar à rua, via saco de lixo. Imaginemos um casal que quebra discos quando discute. Improvável? Nem tanto. De toda maneira melhor pensarmos nesse delirante palpite do que na simples versão de que o disco apenas caiu quando seria trocado de lado. Nem é o caso de investigar, apenas façamos as reflexivas suposições. E eis que o cão, que nada tinha com a briga, digeriu o jazz e estranhamente sob o sol do meio-dia, latiu o som de um trompete. Mastigara justamente um trecho de notas graves. Seu penoso pêlo de cão de rua lhe afigurava um tom maltrapilho e caricato, o que o deixava em maior desarmonia com se...

free ride

Não fui de Uber, gostei de levantar o braço para o táxi. Algum poder em levantar a mão e parar um carro. O vidro abaixa e me perguntam pra onde vou. Entro e tento entender se a variável na resposta determinaria se a corrida seria possível ou não. O senhor não olha nos olhos, está aposentado e diz que aquele táxi não é mais seu trabalho. Entendo que é uma carona. Ele tem pernas de um velho e me dou conta de que não vemos pernas de velho por aí. A bermuda de um bege escuro é in vejável. Quero ser velho de pernas de fora e bermudas bege. A velhice implica em uma liberdade e não há filtros entre o que se pensa e o modo como se fala. As palavras perto do coração. Numa manhã ganho uma carona e ouço a lucidez verborrágica de um senhor de pernas manchadas. Falo alto da vida e escuto o silêncio entre as palavras; a alegria simples de conversar com alguém que não tem medo de por outro alguém carro adentro. Penso na história que me ele me conta e no vizinho que vive sentado. O que posso aprender ...

não se rema no mar

Havia enchido dezenas de bexigas enormes, que eram jogadas no chão no momento seguido ao nó que eu dava para prender o ar dentro delas. Elas desfilavam soltas e, uma entre elas saiu livremente pela porta, indo dançar ao vento por entre crianças, até fragilmente estourar. Me ocorre a ideia que o luto é o masculino de luta. O nocaute é duro mas Dylan e Kundera me socorrem e me arrancam as vísceras. Não há por que me render. O tempo é arrastado e os cigarros amargam a garganta.  As delicadezas das pessoas por perto são como um pouco de sol em dias nublados. Quando não basta a razão para espiar a vida é preciso usar os sentidos; a intuição de perceber qualquer poesia e elegância pelo ar. Não posso dizer que há despedida. Basta fechar um pouco os olhos para espiar as melhores lembranças de anos irretocáveis. Sempre comigo. Sempre. O mar faz seu malabarismo com o pequeno barco cansado. O velho de barbas não há de ceder. Tudo é água ao redor e o sol espia por entre as nuvens a pequena...

sobre temperaturas e impressões

Um copo de saquê. Uma conversa sobre bairros de uma mesma cidade, com galpões e vernissages que se distinguem. Me deram a chave do carro. Prefiro os vidros abertos, mas ligam o ar-condicionado. Entro numa avenida coberta de sol. Um sol que não condiz com o frio dos últimos meses, como um palavrão num discurso de padre. Começa a lei do fumo, mas ninguém fuma. Piadas. Não consigo rir. Mas fico feliz pela alegria do carro. Estaciono na sombra de um prédio e espio um casal que não combina, talvez busquem sexo. Mas é só um palpite, pura interpretação. A gente vai dando opinião sobre tudo e vai esquecendo que as coisas são reféns de como as olhamos. Serão mesmo? A noite não vai se adiantar e aparecer na janela com todo seu frescor. Primeiro terão as horas de sol e copos de água que tentam desabafar o abafado. Tudo se arrasta e apresso o tempo usando fones. A música latina aumenta o calor. Lembro da aula improvisada de salsa. Um, dois, três, cinco, seis, sete. O quatro é dito em silêncio e eq...

exercícios e vaidades

são anos sem escrever. nesse tempo apenas mensagens de texto. poucas cartas de amor, nas datas que se celebram os aniversários, e algum desabafo de alguma angústia. quanto mais escrevo mais limpo fica o pensamento. é como se aos poucos a eloquência do raciocínio tomasse benefício do papel e caneta, voltando ao vocabulário aquelas palavras que são mais comuns grafadas, por exigir da memória mais tempo para nascerem na ponta do lápis do que na ponta da língua. a fala solta não espera, é impulso. são dias em que voltei a caminhar e após o primeiro diploma de andador passei a aprendiz de corredor. poucos quilômetros atrás eu era sedentário, agora mesmo aqui, depois de circundar esses prédios sou atleta de espírito. me beneficio do banho frio e picoto frutas dentro de um copo, a barriga me envolve na cintura apesar de tudo. planejo um corpo em ordem. tudo é vaidade nos movimentos humanos, fiquei sabendo que a bíblia começa assim: tudo é vaidade. tenho tentado ouvir rádio. apostei nele co...

bolso oco

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Arranquei toda a carne do meu corpo, guardei num bolso oco. A pele ainda era nova, sem marcas de rugas ou vermelho de sol. Fiquei em pé, defronte ao espelho, com os ossos amarelados tão escassos de carne. Meu corpo estava cru, risível e exposto. Pra que mantê-la? Era só o muro de uma casa que mal se vê por dentro. Olhei minhas canelas ainda mais finas. Senti que meus braços se arrepiariam se ainda estivessem na sua forma original. Tentei sorrir, mas visualmente nada mudava, a expressão era sempre a mesma pra qualquer sentido. Vesti um par de meia laranja e uma boina preta que jamais havia usado por nunca achar combinação oportuna, mas agora, o conjunto parecia esteticamente adequado. Deixei o apartamento em que morei por alguns meses sem se despedir de qualquer objeto que merecesse meu adeus. Desci quatro lances de escada e alcancei a recepção do prédio. Dormia o funcionário com toda a pompa que seu bigode lhe emprestava. Abri a porta e ali estava; a madrugada com suas horas avançadas....

quem foi nunca mais se foi

Cecília me convidara a viajar. Algum país frio. Deveria levar blusa ou deveria comprá-las por lá? Talvez nos esquentássemos. Talvez. Fui convencido quando me disse que poderíamos caminhar por parques em domingos cinza. Era bonito imaginar. Gravei todos os discos que pude, mas não levei blusas. Cecília decidiu me dar a mão quando no meio de uma avenida aceitei seu convite. Parecia emocionada. Fazia doze dias que me conhecia e era a primeira vez que silenciava tanto. Ficamos assim de mãos dadas pensando nos domingos cinza. Cecília, em sua vida, costurava roupas. Cantava enquanto arrancava uma saia ou uma calça de um pano qualquer. Vestia seus vestidos. Gostava mesmo quando colocava a mão na cintura. Um charme. Dormimos juntos nos quatro primeiros dias que nos conhecemos e passei a sorrir um bocado. No quinto dia depois de Cecília em minha vida, decidi voltar pro mundo. Desci as escadas de sua casa e, na rua, olhando pra cima, vi as nuvens em formas de frango. E quando hora mais tarde che...