não se rema no mar

Havia enchido dezenas de bexigas enormes, que eram jogadas no chão no momento seguido ao nó que eu dava para prender o ar dentro delas. Elas desfilavam soltas e, uma entre elas saiu livremente pela porta, indo dançar ao vento por entre crianças, até fragilmente estourar.
Me ocorre a ideia que o luto é o masculino de luta. O nocaute é duro mas Dylan e Kundera me socorrem e me arrancam as vísceras. Não há por que me render. O tempo é arrastado e os cigarros amargam a garganta. As delicadezas das pessoas por perto são como um pouco de sol em dias nublados.
Quando não basta a razão para espiar a vida é preciso usar os sentidos; a intuição de perceber qualquer poesia e elegância pelo ar. Não posso dizer que há despedida. Basta fechar um pouco os olhos para espiar as melhores lembranças de anos irretocáveis. Sempre comigo. Sempre.


O mar faz seu malabarismo com o pequeno barco cansado. O velho de barbas não há de ceder. Tudo é água ao redor e o sol espia por entre as nuvens a pequena embarcação que resiste. Já não há por que remar e o velho se permite ser parte daquela imensidão azul.
O mar não decide para onde vai enviá-lo. Apenas desaparece negro na noite onde as estrelas brancas incendeiam no céu. O velho olha. Não luta e nem reclama. O mar é soberano e o conduz por dias onde tudo é mar. E, na escuridão, o velho parece espiar a bexiga solta dançando livremente no céu...

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