free ride

Não fui de Uber, gostei de levantar o braço para o táxi. Algum poder em levantar a mão e parar um carro. O vidro abaixa e me perguntam pra onde vou. Entro e tento entender se a variável na resposta determinaria se a corrida seria possível ou não. O senhor não olha nos olhos, está aposentado e diz que aquele táxi não é mais seu trabalho. Entendo que é uma carona. Ele tem pernas de um velho e me dou conta de que não vemos pernas de velho por aí. A bermuda de um bege escuro é invejável. Quero ser velho de pernas de fora e bermudas bege. A velhice implica em uma liberdade e não há filtros entre o que se pensa e o modo como se fala. As palavras perto do coração. Numa manhã ganho uma carona e ouço a lucidez verborrágica de um senhor de pernas manchadas. Falo alto da vida e escuto o silêncio entre as palavras; a alegria simples de conversar com alguém que não tem medo de por outro alguém carro adentro. Penso na história que me ele me conta e no vizinho que vive sentado. O que posso aprender com esse encontro? Há historias que precisamos espiar com os sentidos e não com a razão. Bonita pra caraleo a vida.

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